26 fevereiro 2018

Reflectir para não desperdiçar



Quer-me parecer que, regra geral, somos um povo pouco dado a reflexões. O latinismo que nos corre nas veias suscita reações violentas e imediatas, origina impulsividade. Tudo isto tem o seu lado positivo como é óbvio. Somos cordiais a receber e lestos a dar as nossas afeições, rápidos a decidir e mais rápidos ainda a executar. Claro que tanta ação sem planeamento eventualmente dará a sua quota parte de asneira e, quando chegamos à compra de bens alimentares, a asneira é total.

Antes de comprarmos um carro novo, um eletrodoméstico ou até apenas um telemóvel novo, há um período de reflexão: que modelo escolher, quais as características que mais nos convêm, que fatia do nosso orçamento poderemos dispensar na sua compra.

No entanto, antes de comprarmos bens alimentares, frequentemente não dedicamos tempo nenhum ao planeamento, antes de deitarmos a mão à chave do carro e nos dirigirmos ao supermercado mais próximo. A explicação é fácil e resume-se ao valor monetário dos bens em questão, que consideramos residual, e à frequência alta do ato de consumo, que torna a compra de bens alimentares um acontecimento banal.

No entanto, facilmente consegue imaginar, lendo o primeiro post deste blog, que uma gestão correta dos bens alimentares aí por casa lhe valerá um telemóvel novo no Natal, daqueles mais carotes. Por isso, até por questões monetárias, a reflexão e o planeamento são essenciais. Vamos então por partes:

1ª fase- Quando comprar: 

Por mais que as pessoas detestem rotinas, elas são em muitos casos nossas amigas. Decidir quantos momentos de compra por mês deveremos efectuar, e o exacto momento em que eles devem acontecer, é tão importante na prevenção do desperdício, quanto as quantidades que decidimos comprar. A periodicidade da compra permite, não só uma gestão mais eficaz dos bens existentes, como um melhor conhecimento dos padrões de consumo e até dos perfis de degradação dos alimentos. Por exemplo, se comprar uma alface todas as semanas, mais depressa se aperceberá de que a alface dura pouco mais de uma semana no frigorífico, do que se comprar quatro alfaces por mês, onde possivelmente levará mais tempo a aperceber-se da sua degradação, sobretudo se não consumir todos os dias. Por outro lado, comprar doze iogurtes daqueles que os seus filhos adoram, para as tardes em que eles lancham em casa e eles, devido à volatilidade típica das crianças, só consumirem três nesse mês, é muito pior do que comprar quatro, sabendo de antemão que na semana a seguir já vão pedir outra coisa para o lanche.

2ª fase- O que comprar:

Poderá ser a fase do processo de planeamento mais morosa e aquela que suscitará mais resistência na altura da sua execução, mas acredite, como em tudo, um plano bem delineado, poupa muito tempo, esforço e dinheiro na altura da execução.

Não se limite a verificar o que há no frigorífico, congelador ou dispensa antes de sair para as compras, elaborando uma lista generalista, que invariavelmente, por apetites momentâneos, vai desrespeitar, enquanto passeia pelos corredores do supermercado e pensa " Se calhar esta semana também posso fazer isto para o jantar". Antes de elaborar a sua lista, projete as refeições do período referente às compras, tal e qual como se fosse gestor/a de uma cantina, com as respetivas quantidades associadas.

Elabore a lista mediante esse plano. Permita-se um ou dois elementos de variação apenas "para o caso de" e deixe um dia por planear, para o qual não compra nada. Este será o que nós cá por casa chamamos de "Dia de São Caixa", o dia em que consomem os restos. Se não for esse o caso, poderá ser simplesmente para aquele dia em que chegou cansadíssima/o do trabalho, e o seu primeiro gesto ao chegar a casa foi tirar da carteira o cartão com o número de telefone da pizzaria mais próxima, ou o dia em que afinal o seu/sua mais que tudo, decidiu surpreende-la/o com um jantar fora de casa. Vai ver que no final nunca falta comida e, ainda assim se faltar, obriga-a/o a ir buscar aquele alimento que está no congelador há meses, que era para fazer qualquer coisa especial, mas que até agora continua a acumular gelo.

3ª fase. Mantenha-se fiel ao plano:

Depois de tão merecida reflexão não estrague tudo no supermercado. Não duvide de si própria/o e não comece a achar que se calhar é pouco. Pode acontecer que o seu plano nas primeiras vezes possa não sair perfeito, mas com a continuação, em breve, gerirá um "restaurante" de sucesso em sua casa, com desperdício zero.

Ajude-se a si mesma/o: não vá às compras com fome! É frase que roubo aos nutricionistas de bom grado. Terá que combater muito mais do que o medo de não ter planeado tudo direitinho, se for as compras antes de almoço, de estômago vazio.

E não se esqueça: desperdiçar alimentos é desperdiçar dinheiro.


19 fevereiro 2018

Papa-açordas


Quando anteriormente falamos de desperdício de pão, ficaram prometidas receitas com os restos do mesmo. Talvez a mais óbvia, por terras lusitanas, seja a tradicional açorda. Simples, com poucos ingredientes, deliciosa, pode ser servida como acompanhamento ou prato principal.

A açorda de hoje não é a alentejana. Essa é especial, e também óptima para reciclar pão, mas fica para outro dia.

Esta receita permite reciclar qualquer pão, sendo que com pão de côdea adquire mais textura e sabor. A dificuldade está nas quantidades a usar, que dependem essencialmente do gosto de cada um. 

Ingredientes:

3 carcaças duras
azeite q.b.
3 dentes de alho picados
1 gema de ovo
coentros, sal e pimenta q.b.

1. Desfaça o pão em bocados e cubra de água. Deixe ficar de molho até empapar.

2. Leve o azeite ao lume num tacho com o alho. Deixe refogar, mexendo sempre. O alho deve ficar branco e não frito.

3. Escorra o pão, espremendo. Deite-o no azeite quente e mexa. Deite-lhe cerca de 100 ml de água quente. Tempere com o sal e a pimenta.

4. Retire do lume. Retire um pouco de açorda para uma tigela e misture com a gema de ovo. Depois deite o preparado para dentro da restante açorda, mexendo sempre para que a gema não talhe devido à temperatura.

5.Junte os coentros, tape o tacho e sirva.

Notas:
-Se gostar da açorda mais consistente, pode nem lhe deitar água mas se a preferir mais branda, pode acrescentar mais água do que a quantidade indicada
-Se quiser açorda de camarão, é só substituir os 100 ml de água por caldo de camarão e deitar o camarão cozido descascado junto com os coentros. Uma boa forma de aproveitar restos de uma mariscada.
-Também poderá usar a água de cozer bacalhau e outros peixes e acrescentar-lhe os restos. As hipóteses são muitas.
-Pode servi-la como acompanhamento de várias coisas. Mas dará um óptimo prato principal se lá incorporar restos de peixe, bacalhau, ovas, delicias do mar, sapateira, mexilhão ou berbigão. Também fica boa com bocadinhos de chouriço salteados inicialmente no azeite junto com o alho, ou não fosse feita de pão.

As iguarias que se comem só com aproveitamentos!




12 fevereiro 2018

Os homens são como o camarão...

Pelo menos o meu marido é! E espero que continue a ler, mesmo se for menino, porque longe de ser um post sexista (não faz mesmo o meu género), o título serve apenas para lhe dizer duma forma apelativa que o melhor do camarão é... a cabeça!

Quando como camarão, seja cozido, frito ou até grelhado, a minha parte favorita é mesmo a cabeça. Mas se for daqueles/as (neste post tenho que ter cuidados redobrados com o género) que acha que a cabeça do camarão é para deitar fora, continue a ler que o que vem a seguir é para si.

No jantar de passagem de ano cá em casa, coisa que nunca falta é camarão cozido e frito. Quase podemos chamar já uma tradição. A quantidade de cascas e cabeças que sobra é exorbitante. Durante o jantar vou recolhendo tudo numa caixa. No final, e como obviamente não vou cozinhar imediatamente, guardo tudo no frigorífico.

Para quê? Para fazer caldo de marisco caseiro, muito superior aos caldos de compra, tanto em termos dietéticos como aromáticos.

Pegue então nas suas sobras, deite-as num tacho e cubra-as de água. Leve ao lume até levantar fervura. Deixe ferver 5 a 10 min, mexendo sempre. Este passo serve apenas para baixar a carga microbiana que se possa ter instalado. Regra geral, cada quilo de camarão inteiro traduz-se num litro de caldo, mas poderá ser mais ou menos, consoante o quiser mais ou menos concentrado

Retire do lume, triture tudo com a varinha mágica o mais possível e passe por um passador, para separar o caldo formado das cascas trituradas. O caldo poderá servir de base a inúmeras iguarias. Desde rissóis, aos quais pretendo dedicar um post exclusivo, até bases para caldeiradas ou sopas, o limite é a sua imaginação. Pode congelá-lo se não for para uso imediato.

Deixo a receita da minha sopa de peixe, que poderá constituir uma refeição completa.


Sopa de peixe (para 6 a 8 pessoas):

1 posta de pescada grande, para cozer
1 posta de bacalhau média, demolhada
250g de tiras de pota, cortadas aos cubos
2 colheres de sopa de azeite virgem extra

1 cebola média, picada
3 dentes de alho, picados
390g tomate pelado, cortado aos pedaços
3L de caldo de camarão
250g de mexilhão sem casca
100g massinha de pevide

250g delícias do mar, cortadas aos cubos
sal, piri-piri moido, manjericão e coentros picados q.b.

1- Num tacho coza em água a pescada, o bacalhau e as potas. Atenção aos tempos de cozedura, uma vez que o bacalhau leva menos tempo e as potas mais. Se quiser cozer uma coisa de cada vez, faça-o sempre na mesma água. No final, escorra tudo e reserve a água de cozedura. Retire as espinhas da pescada e do bacalhau e lasque. Reserve.

2- Num tacho grande, para sopa, deite o azeite e leve ao lume até aquecer um pouco. Adicione a cebola e o alho e deixe refogar mexendo sempre, até a cebola ficar transparente. Junte o tomate ( se for de lata pode juntar a calda também) e deixe refogar mais 5 a 10 min, mexendo sempre. No final, retire do lume e triture bem o refogado até ter uma pasta homogénea.

3- Leve o tacho com o refogado ao lume, adicione o caldo do camarão e o piri piri a gosto e deixe ferver. Adicione o mexilhão e a massinha de pevide e deixe cozer 7-8 min. Junte a pescada o bacalhau e as lulas apenas para uniformizar a temperatura no caso de estarem frios. Retire do lume.

4- Adicione finalmente as delicias do mar. Acerte a quantidade de caldo recorrendo á agua da cozedura dos peixes, que deve estar também a ferver, e o sal (pode nem ser preciso). Aromatize a gosto com os coentros e o manjericão.

5- Sirva bem quente. Se houver pão duro lá por casa é uma boa oportunidade para o aproveitar, acompanhando a sopa, frito em de azeite refinado.

Notas:
-Se tiver sobrado camarão para além das cascas, pode naturalmente inclui-lo na sopa,inteiro ou cortado aos bocados se for muito grande. Pode adiciona-lo junto com os peixes para que aqueça e absorva um pouco do aroma da sopa antes de ir para a mesa.
-Se o caldo de camarão não for suficiente, pode adicionar mais água da cozedura do peixe. Não saberá tanto a marisco, mas ficará bom na mesma.
-Se sobrar sopa, pode conservá-la no frigorífico para ser consumida até três dias depois da sua confecção, ou no congelador em doses para consumir quando apetecer, até três meses, sem prejudicar em nada a sua qualidade inicial.

A ginástica desta vez foi grande. É verdade, mas...  olhe à sua volta: Parabéns, não sobrou nada!



05 fevereiro 2018

Online se vai ao longe...


Passamos a vida a discutir os prós e contras da Internet. Para mim, um dos maiores benefícios que trouxe foi, sem duvida, a compra online.
Nos tempos que correm fico ainda algo estupefacta com a resistência existente às compras online. As vantagens são inúmeras: 
-Tempo: Não há filas, não há correrias de um lado para o outro porque nos esquecemos do detergente para a máquina que fica 7 corredores lá atrás;
-Dinheiro: A possibilidade de, quando vamos fechar a compra decidir que, afinal, aquilo que vimos no folheto em promoção é desnecessário; ou que, ultrapassámos o orçamento que queríamos cumprir e temos uma última oportunidade de rever a compra e descartar o que acharmos supérfluo;
-Comodidade: Acabou-se o acartar compras para o elevador, ou pior ainda, escada acima. Os senhores das entregas deixam-lhe as comprinhas todas na cozinha. Só não as arrumam (também não queria mais nada!) Entregam aos fins-de-semana e feriados numa escala de horários bastante alargada.

Tem ainda a vantagem adicional de dificilmente esquecer de alguma coisa, ou comprar em excesso: a dispensa e o congelador estão a dois passos do computador. Mais ainda, acabaram-se as compras por impulso! Olhos que não veem, estômago que não pede! E a maioria das compras por impulso são precisamente aquelas que acabam no lixo (ou no excesso de calorias consumidas, o que acaba por constituir desperdício também). Mais ainda, evitamos ter que levar os mais novos às compras, já que invariavelmente estão connosco nos dias e horas destinados ao supermercado. Não era tão bom não ter que amarrar o Junior ao carrinho, só para conseguir passar pela caixa sem o encher de chupa-chupas e pastilhas?! E pode pagar em casa com o seu cartão de multibanco na mesma e descontar todos os cupões e afins que tenha planeado. As plataformas são intuitivas e fáceis de usar.

Entre as principais causas que me costumam apontar para evitarem as lojas online, está a qualidade dos produtos que não é verificada previamente, as datas de validade dos produtos que as grandes superfícies aproveitam para despachar assim, etc. Tenho a dizer que na minha já longa experiência de comprar online, nem as embalagens vêm amarrotadas, nem os ovos partidos, nem o peixe com mau aspecto. Diria que o cuidado é até redobrado.

Tem desvantagens? Claro que tem. Apenas estabelecimentos com grandes volumes de vendas dispõem destes serviços, impossibilitando ainda as compras no mesmo sistema a pequenos produtores ou mercados mais tradicionais. Não são gratuitos, mas há a possibilidade de subscrever o serviço por períodos alargados de tempo. No caso de não haver um dos produtos que encomendou, não tem hipótese de pensar na hora em alternativas. Ou ainda, há produtos que só conseguimos comprar embalados, impossibilitando a escolha livre das quantidades adequadas e abusando das embalagens plásticas.

Ainda assim, no meu caso, o sistema adoptado de compras semanais, leva a que as vantagens ultrapassem em larga escala as desvantagens. 

Da próxima vez que for às compras ao sítio do costume informe-se sobre a possibilidade de entrega. Em breve, não só vai conseguir desperdiçar muito menos, como isso se vai traduzir no orçamento. Boas compras.