Quer-me parecer que, regra geral, somos um povo pouco dado a reflexões. O latinismo que nos corre nas veias suscita reações violentas e imediatas, origina impulsividade. Tudo isto tem o seu lado positivo como é óbvio. Somos cordiais a receber e lestos a dar as nossas afeições, rápidos a decidir e mais rápidos ainda a executar. Claro que tanta ação sem planeamento eventualmente dará a sua quota parte de asneira e, quando chegamos à compra de bens alimentares, a asneira é total.
Antes de comprarmos um carro novo, um eletrodoméstico ou até apenas um telemóvel novo, há um período de reflexão: que modelo escolher, quais as características que mais nos convêm, que fatia do nosso orçamento poderemos dispensar na sua compra.
No entanto, antes de comprarmos bens alimentares, frequentemente não dedicamos tempo nenhum ao planeamento, antes de deitarmos a mão à chave do carro e nos dirigirmos ao supermercado mais próximo. A explicação é fácil e resume-se ao valor monetário dos bens em questão, que consideramos residual, e à frequência alta do ato de consumo, que torna a compra de bens alimentares um acontecimento banal.
No entanto, facilmente consegue imaginar, lendo o primeiro post deste blog, que uma gestão correta dos bens alimentares aí por casa lhe valerá um telemóvel novo no Natal, daqueles mais carotes. Por isso, até por questões monetárias, a reflexão e o planeamento são essenciais. Vamos então por partes:
1ª fase- Quando comprar:
Por mais que as pessoas detestem rotinas, elas são em muitos casos nossas amigas. Decidir quantos momentos de compra por mês deveremos efectuar, e o exacto momento em que eles devem acontecer, é tão importante na prevenção do desperdício, quanto as quantidades que decidimos comprar. A periodicidade da compra permite, não só uma gestão mais eficaz dos bens existentes, como um melhor conhecimento dos padrões de consumo e até dos perfis de degradação dos alimentos. Por exemplo, se comprar uma alface todas as semanas, mais depressa se aperceberá de que a alface dura pouco mais de uma semana no frigorífico, do que se comprar quatro alfaces por mês, onde possivelmente levará mais tempo a aperceber-se da sua degradação, sobretudo se não consumir todos os dias. Por outro lado, comprar doze iogurtes daqueles que os seus filhos adoram, para as tardes em que eles lancham em casa e eles, devido à volatilidade típica das crianças, só consumirem três nesse mês, é muito pior do que comprar quatro, sabendo de antemão que na semana a seguir já vão pedir outra coisa para o lanche.
2ª fase- O que comprar:
Poderá ser a fase do processo de planeamento mais morosa e aquela que suscitará mais resistência na altura da sua execução, mas acredite, como em tudo, um plano bem delineado, poupa muito tempo, esforço e dinheiro na altura da execução.
Não se limite a verificar o que há no frigorífico, congelador ou dispensa antes de sair para as compras, elaborando uma lista generalista, que invariavelmente, por apetites momentâneos, vai desrespeitar, enquanto passeia pelos corredores do supermercado e pensa " Se calhar esta semana também posso fazer isto para o jantar". Antes de elaborar a sua lista, projete as refeições do período referente às compras, tal e qual como se fosse gestor/a de uma cantina, com as respetivas quantidades associadas.
Elabore a lista mediante esse plano. Permita-se um ou dois elementos de variação apenas "para o caso de" e deixe um dia por planear, para o qual não compra nada. Este será o que nós cá por casa chamamos de "Dia de São Caixa", o dia em que consomem os restos. Se não for esse o caso, poderá ser simplesmente para aquele dia em que chegou cansadíssima/o do trabalho, e o seu primeiro gesto ao chegar a casa foi tirar da carteira o cartão com o número de telefone da pizzaria mais próxima, ou o dia em que afinal o seu/sua mais que tudo, decidiu surpreende-la/o com um jantar fora de casa. Vai ver que no final nunca falta comida e, ainda assim se faltar, obriga-a/o a ir buscar aquele alimento que está no congelador há meses, que era para fazer qualquer coisa especial, mas que até agora continua a acumular gelo.
3ª fase. Mantenha-se fiel ao plano:
Depois de tão merecida reflexão não estrague tudo no supermercado. Não duvide de si própria/o e não comece a achar que se calhar é pouco. Pode acontecer que o seu plano nas primeiras vezes possa não sair perfeito, mas com a continuação, em breve, gerirá um "restaurante" de sucesso em sua casa, com desperdício zero.
Ajude-se a si mesma/o: não vá às compras com fome! É frase que roubo aos nutricionistas de bom grado. Terá que combater muito mais do que o medo de não ter planeado tudo direitinho, se for as compras antes de almoço, de estômago vazio.
E não se esqueça: desperdiçar alimentos é desperdiçar dinheiro.

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