26 março 2018

Só um desabafo...

Se calhar devia ter começado por aqui, mas um blog permite isto mesmo: andar para trás e para a frente a nosso belo prazer.

Ainda me lembro , quando escolhi de uma lista de temas, o do desperdício alimentar para trabalho final da cadeira de seminários II do Mestrado em Ciências Gastronómicas. Foi-nos pedido que escolhêssemos um tema relativamente ao qual soubéssemos pouco. Lembro-me de na altura ter relacionado o tema com cascas  e outras partes "supostamente não comestíveis" dos alimentos.
Não estava efetivamente preparada para o que os números me reservavam.

Segundo a FAO, 1/3 de todos os alimentos produzidos no mundo encontram o seu destino no caixote do lixo. O desperdício está relacionado com o grau de desenvolvimento do país. À medida que este aumenta, a percentagem de desperdício por parte do consumidor final também tende a aumentar. Portanto, os grandes agentes desta problemática somos nós...

Em contrapartida, em todo o mundo, 793 milhões de pessoas sofrem de má nutrição. Aproximadamente 10% da população europeia não aufere de rendimentos suficientes para realizar uma refeição por dia. A má nutrição é, a nível mundial, a principal causa de morte em crianças com menos de 5 anos de idade, representando 45% do total. Uma em cada seis crianças sofre de insuficiência ponderal enquanto uma em cada quatro sofre de raquitismo.

 A produção alimentar chega, neste momento, para alimentar toda a gente. O problema que se põe é na acessibilidade aos alimentos. No entanto, a ONU estima que sejamos mais de 9 mil milhões em 2050. Antes de pensarmos em produzir mais, teremos obrigatoriamente que nos concentrar em desperdiçar menos.


In "Do Campo ao Garfo" Projeto PERDA-
Consegue-se observar pela figura que o único
 sector que desperdiça mais que o consumidor final,
 é o sector primário (produção).
 No entanto, este valor engloba perdas por falha no
escoamento de produção, sendo que estes alimentos
 são reintegrados como fator de produção,
na forma de fertilizante.
Apesar de não servirem de alimento, são reutilizados,
promovendo uma otimização de recursos ecológicos e
agrícolas.
Em Portugal, o projeto PERDA constituído por professores e investigadores da Universidade Nova de Lisboa, permitiu a primeira grande caracterização do perfil do desperdício em Portugal e, mais uma vez, surpresa das surpresas, o grande responsável é o consumidor final.

Este facto é para mim chocante e um pouco incompreensível. Vimos de uma cultura de subsistência. A dieta mediterrânica, tão aclamada pelos seus benefícios, baseia-se numa lógica de aproveitamento de recursos escassos. Algumas das maiores iguarias tradicionais portuguesas consistem em aproveitar coisas como rabo de boi, orelha de porco ou ossos, para uma bela sopa de ossos carregados. Onde exatamente é que perdemos esta lógica?!

Muito pode ser explicado pelos novos ritmos de vida, pela emancipação da mulher, etc, etc. As pessoas vão sabendo fazer cada vez menos na cozinha e vão tendo cada vez menos tempo para isso. Contudo, não deixa de ser um contrassenso que os programas de culinária estejam cada vez mais na moda.

Mas é a nós, consumidores, que cabe inverter o ciclo. E em certos aspetos, como já referi anteriormente, ao combatermos o desperdício alimentar estaremos a melhorar outros parâmetros como o tempo que passamos na cozinha e supermercado. 

Se tudo o mais falhar tente lembrar-se de que não pode ser responsável pela fome de outro ser humano. O sentimento de culpa é o nosso aliado mais precioso nesta batalha que teremos obrigatoriamente de travar, se queremos um mundo um bocadinho melhor.

Deixo o link para um blog que conseguiu simplificar as coisas a números "palpáveis":

https://www.magnet.co.uk/advice-inspiration/blog/2018/February/food-waste-around-the-world

Lembre-se que o seu lixo pode ser a refeição de muitos. 


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